sexta-feira, 2 de outubro de 2020

“Para desfazer tabus, é preciso falar sobre o suicídio sempre de forma ética e responsável”, diz psicóloga

Psicóloga Adriana Atahyde aborda o tema em live realizada pela Secretaria de Gestão de Pessoas do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia no contexto da campanha Setembro Amarelo


O suicídio ainda é tabu na sociedade brasileira, mas pode ser enfrentado se for visto como algo complexo e que demanda uma escuta genuína. Foi assim que a psicóloga Adriana Atahyde definiu os desafios para o tema da live realizada pelo Tribunal Regional Eleitoral da Bahia no último dia 29/9, no perfil do TRE-BA no Instagram. 

No encontro organizado pela Secretaria de Gestão de Pessoas motivado pela campanha “Setembro Amarelo”, a psicóloga afirmou que o suicídio é um fenômeno multideterminado e que requer olhar cada caso. A prevenção, ela disse, acontece a partir de uma série de medidas, entre as quais, desfazer mitos é uma das mais relevantes. “Por exemplo, prevenir não quer dizer garantir. Quem vive esse luto precisa saber que nem sempre é possível salvar quem deseja morrer”. 

E o que uma pessoa busca quando quer tirar a própria vida? “Com certeza, não é chamar atenção, como alguns rotulam”, explicou Adriana Athayde. As respostas para essa pergunta são diversas, mas em essência, esse é o alerta para um sofrimento grande demais. Falar sobre isso é essencial, orientou a psicóloga, mas com os cuidados necessários para evitar gatilhos, ou seja, efeitos contrários à prevenção. 

Publicar cartas ou exibir, seja em obras de ficção ou na mídia, métodos usados por quem se mata são exemplos do que não deve ser feito. A Organização Mundial de Saúde determina uma série de protocolos para abordar o suicídio de forma ética. “É importante que as pessoas saibam disso também para ter cuidado com quem fica, já que a cultura em nossa sociedade ainda é de culpabilização”, observou a Athayde. 

Pandemia

Ainda não é possível mensurar os efeitos da pandemia de coronavírus no que diz respeito ao suicídio, mas a psicóloga afirmou que os efeitos da quarentena ainda serão sentidos por muito tempo. Alguns grupos a preocupam mais. As crianças, por estarem no momento de elaborar o mundo e terem que vê-lo como uma ameaça. Já os idosos, pelo isolamento social, que em outros contextos também pode ser visto como segregação. 

Os mais jovens e os mais idosos, inclusive, estão entre os grupos sociais em que tem aumentado as estatísticas de suicídio, observou a pesquisadora. Nesses grupos, aqueles em mais condições de vulnerabilidade tornam-se mais suscetíveis, como jovens negros, LGBT+ e mulheres vítimas de abusos. “Muitas dessas pessoas vivem desesperança, especialmente se considerarmos que nossa sociedade ainda é racista, machista e preconceituosa. E se projetar no futuro é importante para querer se manter vivo”.

Diálogo 

Durante a live, Adriana Atahyde respondeu perguntas enviadas por servidoras da SGP e também pelo público no Instagram. A psicóloga explicou como os transtornos mentais e o uso abusivo de álcool e outras drogas podem influenciar a decisão de quem pretende não viver mais. “Nenhuma dessas situações, porém, é determinante. Mas as famílias devem estar sempre atentas”. 

Essa atenção é necessária também para entender em que momento buscar ajuda profissional. A orientação da psicóloga é que esse apoio deve vir sempre que a família perceba que há um sofrimento em jogo e que isso não está sendo bem manejado. O diálogo, ela reforçou, é sempre o caminho. “Interditar a fala pode ser devastador e esse efeito, nos casos em que o suicídio acontece, pode ser estender por até três gerações”. 

Mas, como estabelecer essa comunicação? Adriana Athayde trouxe exemplos: ouvir com interesse, sem julgar ou trazer exemplos e comparações. Não se sentir ameaçado pela dor do outro, mas tentar acolhê-la. Para as mães e pais, um conselho: as crianças e jovens precisam aprender a lidar com faltas, falhas, ausências e frustrações. Viver essas situações em ambiente seguro ajuda muito a passar por elas em outros contextos. 

A última pergunta enviada pela SGP questionou Adriana Atahyde sobre o que dizer para aqueles que ficam – as mães que perderam os filhos, os filhos que perderam os pais, os amigos e companheiros que já não poderão mais se encontrar. “Olha, essa pergunta é difícil, ein? Mas acho que não tem muito a dizer, tem muito é a escutar. Favorecer essa escuta para que as pessoas possam ressignificar a dor, se possível, e encontrar a possibilidade de reconstruir coisas através dessa dor”. 

Onde buscar ajuda

1. Faculdade Social (FSBA)
O Serviço Escola de Psicologia Stella de Faro, da Faculdade Social da Bahia, oferece acolhimento e avaliação psicológica, psicoterapia individual e em grupos. Inscrições são realizadas através de telefone ou presencialmente. Há lista de espera.
Telefone: 71 4009-2937.

2. Núcleo de Estudo e Prevenção do Suicídio (NEPS)
O NEPS integra a estrutura do Centro de Informações Antiveno (Ciave)
Telefone: 71 3116-9440, em horário comercial 

3. Centro de Valorização da Vida (CVV)
O CVV realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo de forma voluntária todas as pessoas que querem conversar por telefone, email, chat 24 horas todos os dias
Telefone: 71 3322-4111 ou 141 (capitais)
www.cvv.org.br


CB

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