quinta-feira, 12 de junho de 2014

Um espectro ronda a Copa

Por Sidnei Matos

Manifestantes ocupam o Congresso  Nacional, em Brasília, em protesto 
contra os gastos com Copa de 2014, corrupção e por melhorias no 
transporte, na saúde e na educação.


Embora fragmentadas e espontâneas, as manifestações que levaram milhares de pessoas às ruas do Brasil em junho de 2013 não surgiram do nada. Por isso mesmo, ao ganharem a proporção que ganharam, se mostraram capazes de pautar toda a mídia, inclusive a internacional, num momento em que os jogos da Copa das Confederações ocupariam a agenda pública. Parecia um ensaio.

Hoje, ao iniciar-se a Copa do Mundo, exatamente um ano após a série de protestos que surpreendeu todos brasileiros, um certo clima enigmático está no ar. E não se trata de saber quem será o campeão mundial. O movimento de junho teria sido mesmo uma prévia de uma insurreição com novos precedentes históricos no momento em que o país sedia o maior evento do futebol do mundo?

Não dá para esquecer que na longa e aberta pauta de reivindicações de 2013, além do passe livre, as obras de construção dos grandes estádios para a Copa ocuparam papel central. O ano agora é de futebol e de eleições. Nesta quinta-feira (12/6), mobilizações organizadas pelas redes sociais contra o torneio organizado pela Fifa já começam a aparecer nas ruas.

Em Salvador, manifestantes se concentram na praça do Campo Grande para sair em passeata. Em São Paulo, epicentro da insurreição no ano passado, confronto entre manifestantes e polícia já deixou uma jornalista norte-americana ferida, o que sinaliza que a repressão (e também a reação a ela) vai dar o tom. Diferente das partidas de futebol, não  para se apostar num “bolão” entre amigos o que estar por vir nos próximos dias.

O que na história recente do Brasil passou a ser cunhado de “manifestações de junho” está ainda em desdobramento. O grito “o gigante acordou”, portanto, mais do que traduzir o clamor de uma população que até então parecia inerte no conformismo e na indiferença política, não deixa de evidenciar anos de construção dos novos movimentos urbanos no Brasil. Movimentos estes sempre esquecidos pela grande mídia, mas que agora teimam em dar as caras. Que venha a Copa e as ruas!

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